sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

UM BEIJO ROUBADO

FOTO: Vanessa Dantas

Foi do sofá que ela avistou o abajur dos Beatles, lembrou dele resmungando e começou a gargalhar. Na verdade, começou somente a gargalhar, porque lembrando dele já estava, quase o dia todo, todos os dias, desde o último abraço. No fundo ela queria ele ali, esparramados naquele sofá, tão cúmplice deles dois. Preferia contemplar as cores saturadas do filme do Kar-Wai no aconchego do corpo dele. Por instantes, se sentiu a torta de blueberry, do mesmo Kar-Wai, e viu vantagem nisso.

Alguns anos com medo de encarar aquele filme pela segunda vez, fez com que o DVD comprado permanecesse intacto. E agora estava ali, na TV aberta, compreendendo que nem sempre há explicação para todas as coisas, que há perdas que pedem luto, mas que é possível amar intensamente mais de uma vez.

Poderia passar a vida cortando tomates, se fosse para tê-lo em sua cozinha, proseando, confidenciando, cantando Nelson Gonçalves e enchendo a sua taça. Da cozinha pra sala. Da mesa pro sofá. O mesmo sofá. O cúmplice. Das lágrimas e dos devaneios. E ponto.

O desejo era urgente, mas o zelo era maior. E assim, a cada encontro, adiavam o quarto. Porque sabiam que não teria volta. Do quarto pra cama. Da cama pra vida.

5 comentários:

Suzana Inglez (Suka) disse...

Ai..ai...acho que tem gente apaixonada...

eLi disse...

"...não teria volta. Do quarto pra cama. Da cama pra vida."

UAU! Que coisa mais linda esse texto! Envolvente até o ponto!
(sei que pode parecer uma citação brega, mas lembrei da voz apaixonada daquela cantora, a Jane Duboc, direto dos meus vinis)

Beijão Vanessa!!!

sindro disse...

Oi Adorei o texto, gostaria que conhecesse o meu blog de textos, agradeço desde já a visita, obrigado.

Caco Moreira disse...

A Vanessa Dantas é do tipo que chega como não quer nada e nos envolve com suas narrativas doces, maduras e instigantes.

O trecho final ("E assim, a cada encontro, adiavam o quarto. Porque sabiam que não teria volta. Do quarto pra cama. Da cama pra vida") finaliza como uma assinatura de uma poetisa que - ousadamente me permito fazer essa comparação - lembra meu escritor favorito: Caio Fernando Abreu.

Vanessa, continue assim, envolvente, talentosa e com esse olhar apaixonante!

André Debevc disse...

Eu AMEI esse texto...

Kar Wai. Cores saturadas, cortes secos, closes bem feitos. O último parágrafo é mágico. Perfeito. Deu inveja de não ter escrito. Vi cada segundo desse texto como um filme, senti cada espaço entre palavras como se tivesse lá. O texto, mesmo sem precisar ser longo, é interminavelmente sensacional. Verdade humana fica resfolegando no final. Delicioso.