terça-feira, 25 de novembro de 2008

DAS "COUSAS" QUE VIRAM "CAUSOS"

Eu ainda estava na cama, cumprindo as oito horas de sono para uma cútis feliz, quando o celular tocou. O primeiro pensamento “Por que raios o aparelho não está no silencioso?” e o segundo “Salve a modernidade! Basta checar o número para resolver se atendo ou não”. E, embora o número não fosse parente ou amigo da agenda do meu celular (motivo justificado, muitas vezes, para o não atendimento), o fato do prefixo ser de Sorocaba, fez com que um turbilhão de pensamentos despencassem na minha cabeça: - seria um pedido de socorro de algum aluno prestes a cortar os pulsos por causa do Trabalho de Conclusão de Curso? Ou quem sabe uma ou outra banca de professores precisando ser adiada? O fato é que atendi, "quase" sem pestanejar, já que qualquer possibilidade era completamente cabível nesse momento de calendário acadêmico em polvorosa.

A pessoa do outro lado queria falar com a Professora Doutora Vanessa Dantas. Doutora? Confesso que por pouco respondi que era engano, se não fosse aquela voz forte e doce ao mesmo tempo, que se apresentava como uma senhora de 74 anos de idade, professora aposentada, advogada, cantora lírica (premiada internacionalmente) e escritora de um livro (em andamento) sobre a indústria têxtil da seda na cidade de Sorocaba (na hora me veio à cabeça o livro Seda, do italiano Baricco, que eu tanto aprecio).

Naquele momento, eu sequer conseguia entender o porquê daquele telefonema, como aquela senhora havia conseguido o meu número, por que me chamava de doutora, o que ela esperava de mim, e por fim: será que ela estava falando com a pessoa certa?

Sim. Era comigo mesmo que ela queria conversar. E o motivo era o artigo que escrevi junto com o aluno Túlio Casagrande, que saiu publicado hoje, no Caderno de Turismo, do Jornal Cruzeiro do Sul (basta clicar aqui!), falando sobre o Bairro da Vila Hortência, na cidade de Sorocaba.

E isso foi o suficiente para que a conversa tomasse o rumo devido. E daí por diante, seguimos como velhas conhecidas, tomando um gostoso chá, num final de tarde de temperatura amena. E sendo a memória, um cabedal infinito de lembranças, contou-me inúmeras histórias. Seu pai era quem definia os lugares e a forma onde as fotografias da cidade deveriam ser tiradas para os cartões postais. Seu irmão foi um famoso pintor também reconhecido internacionalmente (não consegui registrar o nome dele, nem de outros tantos, afinal, eu estava atordoada com a quantidade de informações já que ainda estava a despertar), e afirmou ainda que possuía manuscritos do Padre Luiz Castanho de Almeida, ou Aluisio de Almeida, como assinava.
Aquela senhora tinha um repertório incrível a ser explorado (no melhor sentido da palavra), e eu estava ali me privilegiando de tudo aquilo, e sentindo uma proximidade inexplicável, apesar dos 100 km que nos distanciavam. Depois de muita prosa, já na despedida, agradeci pela doce manhã que ela havia me proporcionado, e ela espontaneamente mostrou-se surpresa por minha calorosa acolhida. Prometemos nos encontrar.

Desliguei o telefone, e percebi que não me restava outra opção que não fosse pular da cama e correr para o dia de hoje. Porém, antes de digerir tudo aquilo, o telefone tocou novamente com um número desconhecido e o mesmo prefixo de Sorocaba. Pensei: “será que ela esqueceu de falar algo?”

Não. Dessa vez era uma de minhas queridas alunas, representante da comissão de formatura, me convidando para ser a paraninfa das duas turmas que se formarão nesse ano.

- Haja emoção! E ainda não era nem meio-dia...
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Fotos: Vila Hortência, Vanessa Dantas (2008)

7 comentários:

Liliam disse...

Que delícia ler tudo isso, Van. Parabéns! O mérito é seu, porque a luz é sua. Que bom que está rodeada de pessoas que reconhecem. Estou orgulhosa. Beijos.

Diogo disse...

Parabéns pelo artigo no jornal, texto no blog, velhinha, alunos e fotos. beijo.

Renata M. Domingos disse...

Olhe só o que a minha cidade faz com as pessoas: dá-lhes alegria e emoção!
Adorei o texto, e a matéria no Cruzeiro do Sul. O Quinzinho de Barros é o zoológico mais bonito que visitei, e faz parte da memória da minha infância. Preciso conhecer os outros locais indicados...depois vc me conta mais.
E se for se encontrar com a senhora do telefonema, me chame. Minha avó que mora lá é descendente de espanhóis, e adoraria saber mais sobre a chegada deles lá. Aliás, há um livro sobre este assunto, vc já leu?
Parabéns, Van.
Beijos.

Rodrigo disse...

Se eu te apresentar minha avó, já vi tudo, perco as duas!

É isso aí paraninfa, quero ver o discurso!

Vanessa Dantas disse...

Viu Lili, que coisa bonita?

Valeu, Diogo! Obrigada.

Tá vendo Rê, a coxinha da Real não é o único atrativo da sua cidade! Pode deixar, quando eu for encontrá-la, te aviso. Quanto ao livro, vi, mas não li.

Rô: quero conhecer a Dona Benta ;o) E quanto ao discurso, prometo caprichar! Vou para o Rio, mas acho que só no domingo.

daniel disse...

Acho que a doce senhora acertou em cheio. Você é doutora em hospitalidade. Beijos.

Vanessa Dantas disse...

Dani, como é bom ter você por perto! Beijão.