sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

SANTA DE ARAQUE - PRESENTAÇO DE NATAL III

Dando sequência aos deliciosos presentes de Natal, aqui está um texto de autoria da minha amada prima-irmã (meu pai é irmão da mãe dela, e minha mãe irmã do pai dela) Aline Dantas Pinheiro.

Oh bonita, espero que esse texto seja o primeiro de muitos! Obrigada! Xêro (com "x" mesmo!).


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SANTA DE ARAQUE

Achou que subir a escadaria do Bonfim era demais, pois sobreviver àquela agonia já era um puta sacrifício... ele é quem tinha que subir aquilo umas mil vezes, pensava ela.

Acendeu umas velas pra São Jorge... até o dia em que descobriu que o cara não era um santo tão confiável assim. E agora? Stº Antônio! Casamento? Nãããão! Melhor seria fazer pacto com o demo. Stª Rita? Também não. Não podia acreditar que era uma causa tão impossível assim, e resolveu deixar a santa quieta.

O jeito era apelar pros santos alheios. Tomou passe no centro e dançou no terreiro pra Iansã, desafiou as teorias de Sidarta, e se queimou nas fogueiras da Wicca. Se perdeu um dia na Sinagoga, e foi parar na numeróloga. Pensou em Jah, se rendeu aos rituais primitivos do Xamanismo, e amaldiçoou as cartas do tarô. Quis ir até Meca. Quase tomou o Daime. Pensou até em falar com o Obama. Conversou com a Lua, fez as mandingas do povo e tomou banho de sal grosso.

As fitinhas e os trevos pesavam mais que as moedas dentro da carteira, enquanto a alma se esfarelava em aflição e descrença. Um dia o telefone tocou, e em poucos minutos ela estava lá, no Umbanda. Novos santos, novas energias. Os sons dos tambores lhe arrepiaram até a espinha, e a mãe de santo a recebeu de braços abertos. Decidiu ir falar com o preto véi:

“Ô mizifi! É o seguinte... (num blá blá blá sem fim pediu o help pro caboclo). Ele a olhou com os olhos meio esbugalhados e disse: “Fia, num é certo dizê isso aqui pra vós sunsê, mas isso aí só o grandão lá de cima, viu!”. Só deu tempo de pensar: “PQP!”. E a conversa foi encerrada com uma espécie de passe. Umas assopradas daquele fumo estranho, umas palavras que mais pareciam uma mistura de tupi com russo, e um olhar magnificamente distante.

Foi embora. No carro, à caminho de casa, ainda se sentindo um pedaço de carne defumada, pensou: “É nêga. Nem o preto véi deu conta de desfazer esse nó”. E então jogou as fitinhas fora, apagou as velas, fechou as bíblias, e percebeu que a maior fé só poderia ser nela mesma, e contado com o grandão lá de cima e seu arsenal de novas rezas, se auto-declarou sua própria santa de araque.

3 comentários:

Rodrigo disse...

Nem o preto véi deu conta? Só o grandão lá de cima? Boa sorte... e um feliz 2009!

Vanessa Dantas disse...

rs... essa resposta do preto véi é sensacional mesmo!

Luciana Dantas disse...

Xiii... Misifi!
Tá feia a coisa!
Rsrsrs